Projeto estimula empreendedorismo de mulheres quilombolas do Acará, no Pará

 

Projeto estimula empreendedorismo de mulheres quilombolas do Acará, no Pará

“Antes o que era descarte, na nossa mão vira arte”, é assim que Deise Ferreira Monteiro, define o trabalho que está desenvolvendo atualmente, reutilizando madeira descartada e sementes. Nascida e criada no quilombo Trindade 3, no município do Acará, no Pará, ela diz que já fez de tudo um pouco, mas é no artesanato que sente sua verdadeira vocação. “Muitas das vezes a gente não valoriza nossos próprios produtos, como o caroço do açaí, e hoje com o projeto estamos reaprendendo que podemos utilizar tudo isso e colocar no mercado para que as pessoas conheçam o que produzimos no nosso quilombo”, diz. 

O projeto a que Deise se refere é “Gestão da Bioeconomia na Amazônia” (GEBIO) uma iniciativa da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e que reúne 12 mulheres empreendedoras quilombolas. O objetivo geral é fortalecer a organização comunitária e estimular o empreendedorismo dos agricultores da comunidade Trindade 3. A partir de cursos e oficinas de capacitação, realização de feiras de exposição e comercialização de produtos, entre outras iniciativas. A ideia é que os alunos e professores do projeto acompanhem as mulheres por cerca de dois anos, estimulando o conhecimento da área de gestão, empreendedorismo e marketing, para irem avançando ao longo do tempo. 

“Ainda que elas já trabalhem com seus produtos, elas ainda não têm nenhum desenvolvimento mais consolidado da área do empreendedorismo, ainda não tem uma orientação formal. Por isso a ideia é de trabalharmos com a formação delas, promovendo minicursos dentro da área de gestão e do empreendedorismo, para que elas possam se aprimorar”, explica a coordenadora do projeto, professora Carla Moraes, que decidiu unir as atividades do projeto à duas disciplinas de administração e empreendedorismo ministradas nos cursos de Sistema de informação e de Engenharia florestal.

E a decisão pelo grupo de mulheres não foi por acaso.

“A gente não escolheu a comunidade, eles nos escolheram”, disse a coordenadora. A sugestão partiu da aluna Laís Cristina, que estuda Sistemas de informação e mora no quilombo Trindade 3. “Conversando com vizinhos tivemos a ideia de fazer feiras para expor os produtos. A primeira feira foi ótima e aí só foi crescendo”, disse Laís, que propôs que os trabalhos fossem feitos com essas mulheres. “As lideranças do Acará gostaram de saber que existia uma professora que estava disponível para orientar eles”, disse. 

Os alunos conversaram com as lideranças que visitaram a universidade, para identificar os principais focos produtivos e a partir dessa identificação propor melhorias ou produtos inovadores. Então surgiram iniciativas para serem desenvolvidas pela comunidade, como a proposta de testar o café do açaí, por exemplo. “Outra é a utilização do resíduo do açaí, que pode vir a substituir os MDFs. Eles estão trabalhando também em um gel de andiroba, para ser usado em baques e que tem o caráter antiinflamatório. Eles fizeram a parceria com uma farmacêutica, que começou a orientar os acadêmicos na produção desse produto”, diz a professora. Os alunos também sugeriram a mistura da pimenta com os produtos que já existem na comunidade, como o cupuaçu e o cacau para a produção de geleias. 

Existem também empreendedoras como dona Noemi Ferreira, que começou a produzir chocolate em pó apostando em uma receita que a mãe dela fazia. “Com ela aprendi a fazer o chocolate em pó, ela fazia para substituir o café, porque não tínhamos muito acesso. A partir dessa receita comecei a incrementar a fazer brigadeiros e outros produtos, e vem dando certo”, disse.

Atualmente as mulheres participam e expõem os produtos em feiras, tanto em eventos como na universidade. Durante a Conferência das partes (Cop 30), em Belém, elas participaram de feiras em espaços descentralizados, o que ajudou a incrementar a renda das famílias. “Muitas das mulheres são donas de casa, diaristas, outras funcionárias do município, a maioria delas são mães e procuram ter uma atividade produtiva para somar com a renda do marido”, diz.

 

Texto: Vanessa Monteiro, jornalista, Ascom ufra

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